Evitar filhos para… conter o “aquecimento global”?

“Ter menos filhos para conter o aquecimento global”, como sugere a chamada de um periódico, é tão ridículo quanto deixar as pessoas morrerem de fome, para salvar a vida dos bois, dos porcos e das galinhas.

 

A moda agora, senhoras e senhores, é o antinatalismo com fins ecológicos.

Quem anuncia a nova tendência é a Folha de São Paulo. ” Ter menos filhos“, diz uma reportagem recente do jornal, “pode ser uma das soluções para conter o aquecimento global.” O título da matéria, porém, é escrito em tom imperativo: “Tenha menos filhos“. Isso salvará o planeta. Quem dá a boa-nova, obviamente, não é o jornalista. Para emprestar um ar de autoridade à ideia, nada melhor do que chamar “pesquisadores”, “estudiosos”, “cientistas” — pessoas entendidas que, você supõe, não diriam qualquer bobagem.

À parte, porém, o argumentum ad auctoritatem, qualquer um com o mínimo de bom senso é capaz de enxergar a ideologia por trás dessa proposta. Disto que vai escrito na Folha até o pedido expresso de que o homem, quem sabe, migre para Marte, vai uma distância realmente muito curta.

O silogismo de Seth Wynes e Kimberly Nicholas, a dupla sueco-canadense responsável pelo estudo, parece muito simples. Primeiro, parte-se da premissa, já duvidosa, de que o aquecimento global é causado pelo ser humano; este não vai deixar de desejar “um padrão de vida semelhante ao padrão de consumo intenso dos países ricos”; logo, melhor que não tenhamos seres humanos, pelo menos no futuro.

A partir dessa metodologia, os cálculos mostraram que ter um filho a menos (digamos, um casal que decide ter só dois filhos, em vez de três) reduziria as emissões per capita em quase 60 toneladas de gás carbônico por ano. […] Uma única família americana que decidir ter um filho a menos será capaz de evitar a mesma quantidade de emissões que quase 700 pessoas que passarem a reciclar todo o seu lixo.

Bom, em primeiro lugar, é evidente que as pessoas não precisam de um motivo assim para evitar filhos. A ideia é interessante, no entanto, para atribuir um ar de certa “nobreza moral” à causa dos que não gostam de crianças (ou simplesmente não as querem): não é que eles só pensem no próprio umbigo; a preocupação deles é com o bem do planeta (“do planeta”, grife-se, porque a expressão “bem da humanidade” já está evidentemente ultrapassada).

Em segundo lugar, assumindo que essa fosse realmente uma estratégia “genial”, quem poderia tê-la, senão um ser humano? Galhos de árvores não folheiam livros, nem escrevem em papel (ainda que o papel venha delas); tampouco os chimpanzés, tidos como o ápice da evolução, são capazes de produzir pesquisas sobre mudanças climáticas. Se o planeta estivesse realmente correndo perigo, quem poderia articular uma estratégia para salvá-lo, a não ser os Homo sapiens sapiens?

Com isso, chegamos ao terceiro ponto, e o mais importante de todos. O grande problema dessa pesquisa é o pressuposto do qual ela parte: o de que, numa escala de interesses a ser tutelados, o planeta estaria acima do ser humano. A velha história de preservar o planeta “para as futuras gerações” finalmente cai por terra. O problema não é conservar o que temos para nossos filhos e netos; o problema são os nossos próprios filhos e netos! Se não os evitarmos, a natureza tratará de os eliminar, num futuro “apocalipse ecológico”, como se eles fossem “células cancerígenas”.

Sim, alguém já disse isso e, hoje, são muitos os indivíduos no mundo acadêmico que pensam deste modo. No Direito Ambiental, por exemplo, matéria obrigatória em nossas faculdades jurídicas, os seres humanos não são tratados mais como os únicos “sujeitos de direito”; não é simplesmente para ordenar as suas relações que existe o Direito; não é para servir ao homem que existem os animais, os vegetais e tudo quanto há. Não, isso faria parte de uma visão de mundo antropocêntrica. O que conta pontos agora é ser “ecocêntrico”; é defender a natureza por si mesma; é defender igualmente todas as formas de vida!

Os promotores dessa ideologia, no entanto, nem sempre levam até o fim as consequências dessa forma de pensar. Continuam a se alimentar da carne de animais, sem lhes pedir o consentimento; continuam a pisotear baratas e formigas, sem nenhum escrúpulo; e nesse processo predatório e opressor, não poupam nem mesmo as alfaces, perturbando a absoluta tranquilidade que reina entre os vegetais.

Pode parecer brincadeira, mas a verdade sobre as coisas é esta. Sempre que alguém coloca um bife de carne animal na boca, está admitindo que a natureza pode, sim, servir aos interesses do homem. Sempre que assistimos a um documentário animal, em que um leão é visto atacando uma girafa, por exemplo, e não nos revoltamos pelos “direitos” da girafa, é porque sabemos que existe uma hierarquia nas coisas criadas. E esse não é o tipo de coisa que se possa modificar ou abolir simplesmente por uma “lei” ou por uma nova forma de pensar. Nossas ideias, afinal, só valem alguma coisa se estiverem em conformidade com o mundo real. Caso contrário, o único lugar para o qual elas devem ir é a lata de lixo.

“Ter menos filhos para conter o aquecimento global” é tão ridículo quanto dizer que se devem matar todos os leões para salvar a vida das girafas; ou deixar as pessoas morrer de fome, para salvar a vida dos bois, dos porcos e das galinhas. Se você é capaz de entender isso, parabéns! Mais do que um cérebro, você possui uma faculdade chamada inteligência. Use-a para algo útil, povoe o mundo de seres iguais a você e, se possível, ajude a resgatar o jornalismo e as outras ciências humanas da fossa em que há muito tempo elas se encontram.

Fonte: Equipe Christo Nihil Praeponere

2017-08-06T09:53:07+00:00 0 Comments

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